
Você abre uma loja e encontra um monte de marcas de memória RAM. Como esse mercado pode ser dominado por tão poucas empresas? Porque a marca do módulo que vai no computador e a fabricante dos chips soldados nele podem ser diferentes. A variedade na prateleira não conta a história inteira.
Samsung, SK hynix e Micron somaram 90% da receita mundial de DRAM no segundo trimestre de 2026: 39%, 26% e 25%, respectivamente, segundo a Counterpoint Research. É participação em faturamento, não uma contagem de chips. E existem outros fabricantes, como CXMT e Nanya. O que precisa de explicação é como três empresas chegaram a concentrar tanto desse mercado.
Por que fabricar RAM é um negócio tão difícil
DRAM é a memória usada para manter dados disponíveis enquanto o computador trabalha. Nos módulos de RAM, padronização permite que diferentes fornecedores atendam à mesma plataforma, respeitando geração, características elétricas e requisitos de funcionamento. Isso ajuda a indústria a comprar de mais de uma empresa, mas também torna o custo de produção decisivo.
O desafio é fabricar mais capacidade de memória gastando menos. Só que a economia por chip depende de um investimento enorme antes da primeira venda: fábrica, equipamentos, desenvolvimento do processo e pessoal especializado. Uma instalação nova leva anos para ficar pronta. Até lá, o mercado que justificou a obra pode ter mudado.
Se falta memória, os preços sobem e construir parece uma ótima ideia. Quando várias empresas chegam à mesma conclusão, a capacidade adicional pode aparecer justamente quando a demanda perde força. A fábrica fica pronta; o cliente não assinou um compromisso de continuar comprando para sempre.
As empresas conseguem reduzir produção, mas isso não apaga o investimento nem todos os custos fixos. Produzir menos também significa distribuir parte desses custos por menos chips. Essa combinação ajuda a entender por que a história da RAM alterna expansão, prejuízo e consolidação.
Quando até a Intel desistiu da DRAM
A Intel ficou conhecida pelos processadores, mas memória foi central no começo da empresa. Em 1985, ela decidiu abandonar a DRAM e concentrar recursos em microprocessadores. A própria história oficial da Intel registra essa mudança. A empresa que ajudou a construir o mercado concluiu que precisava sair dele.
O avanço japonês tinha uma base industrial concreta. Fabricantes como NEC, Hitachi e Toshiba estavam ligados a grandes conglomerados, com capacidade de absorver perdas em uma divisão enquanto outras sustentavam o grupo. Melhorias de fabricação e acesso a capital ajudavam essas empresas a atravessar a guerra de preços.
A reconstrução histórica da Fabricated Knowledge sobre os anos 1980 mostra que o acordo comercial entre Estados Unidos e Japão, em 1986, beneficiou Micron e Texas Instruments. Ao mesmo tempo, houve adaptação industrial e melhora de rendimento. Reduzir a sobrevivência da Micron a uma única medida política apaga parte da história.
O resultado da crise foi uma seleção dura: ter tecnologia não bastava. Era preciso continuar financiando a operação quando vender mais chips já não significava ganhar mais dinheiro. Quem saía da disputa deixava clientes, equipamentos e espaço para os sobreviventes.
As crises seguintes juntaram o que antes competia
Nos anos 1990, a expansão dos PCs e de programas mais exigentes criou espaço para outra rodada de investimento. A Coreia do Sul ganhou força, mas também ficou exposta à queda seguinte. A análise da Fabricated Knowledge sobre aquela década registra quedas de 75% nos preços de DRAM em 1996 e de mais 40% em 1997. Investir durante a alta não garantia caixa para atravessar a baixa.
Vieram fusões e aquisições. A Micron comprou o negócio de memória da Texas Instruments em 1998. NEC e Hitachi reuniram suas operações de DRAM na Elpida em 1999. Na Coreia, a combinação de Hyundai Electronics e LG Semicon deu origem à operação que depois receberia o nome Hynix. O histórico da Nomad Semi organiza essa sequência de consolidação.
A rodada seguinte atingiu Qimonda e Elpida. A primeira entrou em insolvência em 2009. A segunda pediu proteção contra falência em 2012 e foi adquirida pela Micron em 2013. Conforme a análise da Nippon.com, a Elpida havia recebido apoio público em 2009, mas enfrentou dificuldades para transformar sua estratégia de produtos em recuperação sustentável.
Isso importa porque dinheiro de resgate não garante competitividade. Processo de fabricação, produtos, clientes e decisões de investimento continuam contando. A concentração aumentou por uma combinação de crises, escolhas empresariais e compras de operações em dificuldade. Também não significa que toda a indústria de memória fora das três líderes desapareceu.
A inteligência artificial muda a disputa por capacidade
Nem as sobreviventes ficaram imunes aos ciclos. A SK hynix informou prejuízo operacional de 7,73 trilhões de won em 2023. É um lembrete do risco envolvido em ampliar produção com base na expectativa de demanda futura.
A inteligência artificial acrescenta uma disputa entre tipos de memória. A HBM usa chips empilhados e uma interface muito larga para entregar grande volume de dados aos aceleradores. A Micron explica essa arquitetura, voltada a aplicações que precisam de muita largura de banda. Ela exige escolhas industriais diferentes das de um módulo DDR5 para desktop.
A Counterpoint também aponta crescimento de CXMT e Nanya em 2026. Mais concorrência pode alterar o equilíbrio, mas não permite decretar a falência de uma líder nem marcar no calendário a próxima liquidação de RAM. O histórico explica o mecanismo; não entrega a data da próxima virada.
Para avaliar um computador agora, vale comparar configurações completas nas builds da PC Builder, considerando o orçamento e o uso. Se a dúvida é ampliar a máquina atual, a avaliação de upgrades ajuda a identificar a necessidade real. A história das fabricantes dá contexto ao preço. A decisão de compra ainda precisa fazer sentido para o seu PC.
Fontes
- Counterpoint Research: mercado de DRAM no segundo trimestre de 2026.
- Intel: saída do mercado de DRAM.
- Fabricated Knowledge: ciclo dos anos 1980.
- Fabricated Knowledge: ciclo dos anos 1990.
- Nomad Semi: história e consolidação da indústria de memória.
- Nippon.com: resgate e crise da Elpida.
- SK hynix: resultados de 2023.
- Micron: arquitetura e aplicações de HBM.


