
Se você comprou um monitor LG recentemente, plugou o cabo no PC e, do nada, apareceu um aplicativo da LG instalado no Windows — junto de um pop-up oferecendo teste grátis de antivírus —, não, você não fez nada errado. O Windows instalou aquilo sozinho, usando um recurso oficial que existe no sistema há mais de dez anos.
O caso virou um dos assuntos mais comentados do mundo do hardware, rendeu resposta pública da Microsoft e, sete dias depois, uma reviravolta que deixou a bronca da empresa com cara de piada. Vale destrinchar, porque o detalhe técnico aqui importa muito mais que a fofoca — e afeta qualquer PC com Windows, inclusive o seu.
O que aconteceu com os monitores LG
Donos de monitores LG começaram a notar que, ao conectar o monitor, o Windows baixava e instalava sem perguntar nada um aplicativo "companheiro" da LG. Sem clique em instalador, sem tela de confirmação, sem aviso.
Até aí seria só chato. O problema é o que vinha dentro. Segundo o levantamento do Privacy Guides, o aplicativo declarava acesso a "todos os recursos do sistema" — a permissão mais ampla que um app desse tipo pode pedir. E ele exibia um pop-up promovendo o teste grátis do antivírus McAfee.
O canal Gamers Nexus mediu a frequência: em 32 inicializações do PC, o anúncio apareceu 31 vezes. Na prática, o monitor que você pagou caro virou espaço publicitário dentro do seu próprio sistema operacional.
Como o Windows instala programas sem te perguntar
Aqui está a parte que realmente interessa a quem monta, conserta e usa PC todo dia: isso não foi vírus, não foi falha de segurança e não foi driver mal-comportado. Foi um recurso funcionando exatamente como foi desenhado.
Desde o Windows 8 existe o conceito de "app companheiro" de hardware. O fabricante registra na Microsoft um aplicativo vinculado a um dispositivo e, quando o Windows reconhece aquele hardware conectado, ele baixa e instala o app em silêncio. A chave que governa esse comportamento no sistema se chama, literalmente, Silent installed apps — algo como "aplicativos instalados silenciosamente".
E a LG está longe de ser a única a usar isso: Dell e Alienware fazem o mesmo com seus dispositivos. O mecanismo é até conveniente quando entrega algo útil, tipo um painel de controle do monitor. Vira problema no minuto em que alguém decide monetizar aquele espaço.
É por isso que, na bancada, a gente vê tanto PC "limpo" com programa estranho rodando no boot. Nem sempre o usuário instalou alguma coisa errada — às vezes o sistema simplesmente colocou lá. Em atendimentos de manutenção e diagnóstico, esse é um dos primeiros pontos que a gente verifica quando a máquina demora pra iniciar.
A Microsoft deu a bronca — e sete dias depois fez pior
A repercussão foi tão grande que até Tim Sweeney, da Epic Games, cobrou publicamente o responsável pelo Windows. A Microsoft respondeu rápido: disse que conversou com a LG, que o pop-up foi desabilitado e que segue trabalhando por uma experiência melhor para os clientes. Saiu na foto como xerife do bloatware.
Cerca de uma semana depois, o Windows 11 passou a instalar sozinho — também sem perguntar — um segundo aplicativo de fotos, o OneDrive Photos. Ninguém pediu. E ele não tem desinstalação própria: para tirar do sistema, o caminho passa por desinstalar o OneDrive inteiro.
Tem mais: o app traz uma seção que agrupa suas fotos por rosto, ou seja, processamento biométrico. Esse recurso específico é opt-in, você precisa ligar. Mas o aplicativo em si chegou na máquina sem consentimento nenhum.
Por que o problema nunca foi a McAfee
É tentador olhar essa história e culpar o anúncio de antivírus. Ele é o sintoma mais visível, mas não é a doença.
O problema é o método. Existe uma via oficial, mantida pela Microsoft, para instalar software na sua máquina sem perguntar. Enquanto essa porta existir, a sua privacidade depende inteiramente do bom comportamento de quem tem a chave — os fabricantes de hardware e a própria Microsoft. Os dois episódios acima, separados por sete dias, mostram exatamente o que acontece quando alguém decide usar essa porta para algo que interessa mais a ele do que a você.
No fim, a Microsoft criticou a LG por usar uma porta que ela mesma construiu, mantém aberta e usou uma semana depois para um aplicativo bem mais invasivo que um pop-up de antivírus.
O que dá pra fazer no seu PC
Você não tem como fechar a porta, mas tem como auditar o que passou por ela:
- Revise os aplicativos instalados. Em Configurações > Aplicativos > Aplicativos instalados, ordene por data de instalação. Programa que apareceu numa data em que você não instalou nada quase sempre chegou por esse caminho.
- Desinstale sem medo o que você não usa. App companheiro de monitor raramente é necessário — a maioria dos ajustes de imagem está no menu OSD do próprio monitor, nos botões físicos.
- Desconfie de pop-up de antivírus que aparece toda vez que o PC liga. Antivírus legítimo que você instalou não fica pedindo assinatura em todo boot.
- Em PC novo ou recém-formatado, faça a limpeza no primeiro dia. É muito mais fácil identificar o que é bloatware antes de você instalar seus próprios programas por cima.
- Revise as permissões de câmera, microfone e fotos depois de qualquer atualização grande do Windows. Recurso novo às vezes chega ligado por padrão.
Se a máquina já está lenta, cheia de coisa que você não reconhece e você não quer sair mexendo por conta própria, uma limpeza feita por quem entende resolve em uma passada — e é exatamente esse tipo de serviço que a gente faz na oficina.
Conclusão
O episódio LG + McAfee é engraçado, mas a lição é séria: o Windows moderno tem canais oficiais para instalar coisas no seu PC sem pedir licença, e nem a dona do sistema resiste a usá-los quando é conveniente. Saber que esse caminho existe já muda a forma como você olha para aquele programa estranho no boot.
Aqui na PC Builder a gente monta e mantém PC pensando justamente nisso: sistema limpo, sem porcaria pré-instalada, com o hardware que você escolheu e nada além. Se você está montando uma máquina nova, dá uma olhada nas nossas montagens e na loja. E se o problema é a máquina que você já tem, fala com a gente que a gente avalia.


